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sábado, 22 de fevereiro de 2020

Blanca Varela (Peru: 1926 – 2009)




Ninguém sabe de minhas coisas

(dedicatória)

1
a ti capaz de desaparecer
de ser atormentado pelo fogo
luminoso opaco mau divino

a ti
fantasma de cada hora
mil vezes morto recém-nascido sempre
a ti capaz de fazer girar a chave
de inventar o sol em um quarto vazio

A ti afogado em um oceano de similaridade
náufrago de cada manhã
escravo proprietário de sapatos jornais
alguns livros
talvez pai ou filho
guardião de ressecados jardins de aves passageiras

a ti
observador do crepúsculo
infatigável leitor do relógio do sonho
da fatiga do tédio e da esposa
a ninguém senão a ti

2
(a qualquer hora do dia)

Em uma fogueira extinta
essa mulher sacrificada
cerrava os olhos e nos negava a alegria de sua agonia

3
E um cachorro uma gota de chuva uma família a passeio
Como em um quadro entravam para sempre na memória
uma volta de porca e outra e outra um degrau que estala
sempre à mesma altura da obscuridade
a alegria pode ser esta beberagem obscura o néon das cinco
da tarde a mais esplendorosa verdade
assim quase cegos encontrando como ninguém a miséria generosa
cruzando o muro invisíveis
mãos tão pálidas não existiram jamais em outras mãos
olhos contemplaram a tarde
e defronte ao mar negra ruína e portentosos círculos de
bruma
rodeando-nos
e os rubros rio cachorro mosca língua e a tarde rainha dos
desnudos
maldosos braços em sua varanda de cinza

4
(noite e desgosto)

tragada cruel canção de cego
a noite começa a respirar
tudo se afasta
tudo se perde

Cárcere cinema amarelinha lua de farmácia
às oito horas, às nove a às dez
convertido em um fantasma cruel beijas a mil mulheres
acaricias seus seios para os outros
dás-me asco
e é esta náusea o melhor de minha vida

5
(conversas insidiosas)

alguém diz teu nome
– és um livro interessante e falas de um herói –
anônimo certamente
há uma estrela azul no fundo de meu vaso
inesgotável estrela
deve brilhar em teus olhos toda vez que a olho
como deves rir para os outros
tu cordeiro disfarçado de cordeiro
tu lobo solitário
tu terrivelmente menino
– os belos pensamentos senhores
não ocultam o perfume da carne
havemos de transpirar nos museus como bestas
submissas bestas em seu recanto de veludo
– Picasso por exemplo...

6
(dizem-me a verdade)

Dize-me
durará este assombro?
esta letra carnal
louco círculo de dor atado ao lábio
esta diuturna catástrofe
esta malcheirosa dourada ruela sem começo nem fim
este mercado onde a morte enfeita as esquinas
com prataria corrompida e estéreis estrelas?

7
de novo tece sua impossível claridade o envenenado
sorriso solar
sentes a divina cusparada sobre a besta sentes o
fedor da rosa sentes meu coração sobre o teu?
mas tarde será tarde quando a solidão substituir o melhor
novamente teus lábios teus olhos as ruínas de tuas carícias
o mar de meu peito
a solidão “estrela de minhas noites”
ninguém sabe de minhas coisas

8
(pobres matemáticas)

Quando nada sobrar de ti e de mim
haverá água e sol
e um dia que abra as portas mais secretas
mais obscuras mais tristes
e janelas vivas como grandes olhos
despertos sobre a alegria
e não terá sido em vão que tu e eu
apenas tenhamos pensado o que outros fazem
porque alguém tem que pensar a vida


Nadie sabe de mis cosas

(dedicatoria)

1
a ti capaz de desaparecer
de ser atormentado por el fuego
luminoso opaco ruin divino

a ti
fantasma de cada hora
mil veces muerto recién nacido siempre
a ti capaz de hacer girar la llave
de inventar el sol en un cuarto vacío

a ti ahogado en un océano de semejanza
náufrago de cada mañana
esclavo propietario de zapatos periódicos
algunos libros
tal vez padre o hijo
guardián de resecos jardines de aves de paso

a ti
observador de la tarde
infatigable lector del reloj del sueño
de la fatiga del tedio de la esposa
a nadie sino a ti

2
(cualquier hora del día)

en una hoguera extinguida
esa mujer sacrificada
cerraba los ojos y nos negaba la dicha de su agonía

3
y un perro una gota de lluvia una familia de paseo
como en un cuadro entraban para siempre en la memoria
una vuelta de tuerca y otra y otra un peldaño que cruje
siempre a la misma altura de la oscuridad
la dicha puede ser este brebaje oscuro el neón de las cinco
de la tarde la más esplendorosa verdad
así casi ciegos encontrando generosa como nadie la miseria
cruzando el muro invisibles
manos tan pálidas no han existido jamás en otras manos
ni tanto calor en tanto frío ni ojos tan llenos de otros
ojos contemplaron la tarde
y frente al mar negra ruina y portentosos círculos de
bruma
rodeándonos
y el rojo lengua río perro mosca y la tarde la reina de
desnudos
malvados brazos en su balcón de ceniza

4
(noche y descontento)

pitada cruel canción de ciego
la noche comienza a respirar
todo se aleja
todo se pierde

cárcel cine amarilla luna de farmacia
a las ocho a las nueve a las diez
convertido en un fantasma cruel besas a mil mujeres
acaricias sus senos para los otros
me das asco
y es esta náusea lo mejor de mi vida

5
(conversaciones insidiosas)

alguien dice tu nombre
—es un libro interesante y habla de un héroe
anónimo por cierto
hay una estrella azul al fondo de mi vaso
inagotable estrella
debe brillar en tus ojos cada vez que la miro
cómo debes reír para los otros
tú cordero disfrazado de cordero
tú lobo a solas
tú atrozmente niño
—los bellos pensamientos señores
no ocultan el perfume de la carne
hemos de transpirar en los museos como bestias
sumisas bestias en su rincón de terciopelo
—Picasso por ejemplo...

6
(tell me the truth)

dime
¿durará este asombro?
¿esta letra carnal
loco círculo de dolor atado al labio
esta diaria catástrofe
esta maloliente dorada callejuela sin comienzo ni fin
este mercado donde la muerte enjoya las esquinas
con plata corrompida y estériles estrellas?

7
hila su imposible claridad nuevamente la envenenada
sonrisa solar
¿sientes el divino salivazo sobre la bestia sientes el
hedor de la rosa sientes mi corazón sobre el tuyo?
más tarde será tarde cuando la soledad invente lo mejor
nuevamente tus labios tus ojos las ruinas de tus caricias
el mar de mi pecho
la soledad «estrella de mis noches»
nadie sabe de mis cosas

8
(pobres matemáticas)

cuando nada quede de ti y de mí
habrá agua y sol
y un día que abra las puertas más secretas
más oscuras más tristes
y ventanas vivas como grandes ojos
despiertos sobre la dicha
y no habrá sido en vano que tú y yo
sólo hayamos pensado lo que otros hacen
porque alguien tiene que pensar la vida



Jorge Seferis (Grécia: 1900 – 1971)

  Argonautas   E se a alma deve conhecer-se a si mesma ela deve voltar os olhos para outra alma: * o estrangeiro e inimigo, vim...