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quarta-feira, 1 de julho de 2020

Octavio Paz (México: 1914 – 1998)




Para Além do Amor


Tudo nos ameaça:
O tempo, que em vivos fragmentos divide
o que fui
do que serei,
como o facão à cobra;
a consciência, a transparência transpassada,
o olhar cego de olhar-se a olhar;
as palavras, luvas cinzentas, poeira mental sobre a erva,
a água, a pele;
nossos nomes, que entre ti e mim se levantam,
muralhas de vazio que nenhuma trombeta derruba.

Nem o sonho e sua multidão de imagens rotas,
nem o delírio e sua espuma profética,
nem o amor com seus dentes e unhas nos bastam.
Para além de nós mesmos,
nas fronteiras do ser e do estar,
uma vida mais vida nos reclama.

Lá fora a noite respira, se distende,
plena de grandes folhas quentes,
de espelhos que combatem:
frutas, garras, olhos, folhagens,
costas que reluzem,
corpos que abrem caminho entre outros corpos.

Deita-te aqui à margem de tanta espuma, 
de tanta vida que se ignora e se entrega:
tu também pertences à noite.
Estende-te, brancura que respira,
pulsa, oh estrela repartida,
copagem,
pão que inclinas a balança do lado da aurora,
pausa de sangue entre este tempo e outro sem medida.


Más Allá del Amor


Todo nos amenaza:
el tiempo, que en vivientes fragmentos divide
al que fui
del que seré,
como el machete a la culebra;
la conciencia, la transparencia traspasada,
la mirada ciega de mirarse mirar;
las palabras, guantes grises, polvo mental sobre la yerba,
el agua, la piel;
nuestros nombres, que entre tú y yo se levantan,
murallas de vacío que ninguna trompeta derrumba. 

Ni el sueño y su pueblo de imágenes rotas,
ni el delirio y su espuma profética,
ni el amor con sus dientes y uñas nos bastan.
Más allá de nosotros,
en las fronteras del ser y el estar,
una vida más vida nos reclama.

Afuera la noche respira, se extiende,
llena de grandes hojas calientes,
de espejos que combaten:
frutos, garras, ojos, follajes,
espaldas que relucen,
cuerpos que se abren paso entre otros cuerpos. 
Tiéndete aquí a la orilla de tanta espuma,
de tanta vida que se ignora y se entrega:
tú también perteneces a la noche.
Extiéndete, blancura que respira,
late, oh estrella repartida,
copa,
pan que inclinas la balanza del lado de la aurora,
pausa de sangre entre este tiempo y otro sin medida.



Jorge Seferis (Grécia: 1900 – 1971)

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