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sexta-feira, 13 de novembro de 2020

Louise Glück (EUA: 1943 – )

 

Averno – 18/18

 

Perséfone, a errante

 

Na segunda versão, Perséfone

está morta. Ela morre, sua mãe sofre –

problemas de sexualidade não devem

nos importunar aqui.

 

Compulsivamente, em luto, Démeter

circunda a terra. Não esperamos saber

o que Perséfone está fazendo.

Ela está morta, os mortos são mistérios.

 

Aqui temos

a mãe e uma cifra: isso

traduz a exata experiência

da mãe enquanto

 

olha o rosto do bebê. Ela pensa:

Eu me lembro de quando você não existia. A criança

fica confusa; mais tarde, a impressão da criança é a

de que sempre existiu, assim como

 

sua mãe tenha sempre existido

como é no presente. Sua mãe

é como uma pessoa em um ponto de ônibus,

um público para a chegada do ônibus. Antes,

ela era o ônibus, um provisório

lar ou comodidade. Perséfone, em segurança,

olha fixamente da janela da carruagem.

 

O que ela vê? Uma manhã

de início de primavera, em abril. Agora

toda a sua vida está começando – infelizmente,

essa será

 

curta. Ela está a ponto de conhecer, de fato,

 

apenas dois adultos: a morte e sua mãe.

Mas dois é

duas vezes o que tem sua mãe:

sua mãe tem

 

uma criança, uma filha.

Como deusa, ela poderia ter

tido mil crianças.

 

Começamos a ver aqui

a profunda violência da terra

 

cuja hostilidade sugere

que ela não tem nenhum desejo

de continuar a ser uma fonte de vida.

 

E por que essa hipótese

nunca é discutida? Porque

ela não está na história; ela apenas

cria uma história.

 

De luto, após a morte de sua filha,

a mãe erra pela terra.

Ela está preparando sua causa;

como um político

ela se lembra de tudo e não admite

coisa nenhuma.

 

Por exemplo, o nascimento

de sua filha foi insuportável, sua beleza

foi insuportável; ela se lembra disso.

Ela se lembra da inocência,

da ternura de Perséfone  –

 

O que ela está planejando, ao procurar sua filha?

Ela está emitindo

um aviso cuja mensagem implícita é:

o que você está fazendo fora de meu corpo?

Você se pergunta:

por que o corpo da mãe é seguro?

 

A resposta é

essa é a pergunta errada, visto que

 

o corpo da filha

não existe, a não ser

como um membro do corpo da mãe

que precisa ser

reenxertado a qualquer custo.

 

Quando um deus está de luto isso significa

destruir os outros (como na guerra)

enquanto ao mesmo tempo ele apela

para a revogação de acordos (como também na guerra)

 

se Zeus a trouxer de volta

o inverno terminará.

 

O inverno terminará, a primavera retornará.

as pequenas brisas importunas

que tanto amei, as idiotas flores amarelas –

 

A primavera retornará, um sonho

fundamentado em uma falsidade:

que os mortos retornam.

 

Perséfone

foi usada até a morte. Agora por repetidas vezes

sua mãe a arrasta para fora de novo –

 

Você deve se perguntar:

as flores são reais? Se

 

Perséfone “volta” será

por uma de duas razões:

 

ou ela não estava morta ou

estava sendo usada

para sustentar uma ficção –

 

Penso que posso me lembrar

de estar morta. Por muitas vezes, no inverno,

eu me aproximei de Zeus. Diga-me, eu perguntaria

como posso tolerar a terra?

 

E ele diria,

brevemente você estará aqui de volta.

E no entremeio

 

você se esquecerá de tudo:

aqueles campos de gelo serão

os prados do Elísio.

 

 

Persephone the Wanderer

 


In the second version, Persephone
is dead. She dies, her mother grieves –
problems of sexuality need not
trouble us here.

 

Compulsively, in grief, Demeter
circles the earth. We don’t expect to know
what Persephone is doing.
She is dead, the dead are mysteries.

 

We have here
a mother and a cipher: this is
accurate to the experience
of the mother as

 

she looks into the infant’s face. She thinks:
I remember when you didn’t exist. The infant
is puzzled; later, the child’s opinion is
she has always existed, just as

 

her mother has always existed
in her present form. Her mother
is like a figure at a bus stop,
an audience for the bus’s arrival. Before that,
she was the bus, a temporary
home or convenience. Persephone, protected,
stares out the window of the chariot.

 

What does she see? A morning
in early spring, in April. Now

 

her whole life is beginning — unfortunately,
it’s going to be
a short life. She’s going to know, really,

 

only two adults: death and her mother.
But two is
twice what her mother has:
her mother has

 

one child, a daughter.
As a god, she could have had
a thousand children.

 

We begin to see here
the deep violence of the earth

 

whose hostility suggests
she has no wish
to continue as a source of life.

 

And why is this hypothesis
never discussed? Because
it is not in the story; it only
creates the story.

 

In grief, after the daughter dies,
the mother wanders the earth.
She is preparing her case;
like a politician
she remembers everything and admits
nothing.

 

For example, her daughter’s
birth was unbearable, her beauty
was unbearable: she remembers this.
She remembers Persephone’s
innocence, her tenderness —

 

What is she planning, seeking her daughter?
She is issuing
a warning whose implicit message is:
what are you doing outside my body?

You ask yourself:
why is the mother’s body safe?

 

The answer is
this is the wrong question, since

 

the daughter’s body
doesn’t exist, except
as a branch of the mother’s body
that needs to be
reattached at any cost.

 

When a god grieves it means
destroying others (as in war)
while at the same time petitioning
to reverse agreements (as in war also):

 

if Zeus will get her back,
winter will end.

 

Winter will end, spring will return.
The small pestering breezes
that I so loved, the idiot yellow flowers –

 

Spring will return, a dream
based on a falsehood:
that the dead return.

 

Persephone
was used to death. Now over and over
her mother hauls her out again –

 

You must ask yourself:
are the flowers real? If

 

Persephone “returns” there will be
one of two reasons:

 

either she was not dead or
she is being used
to support a fiction –

 

I think I can remember
being dead. Many times, in winter,
I approached Zeus. Tell me, I would ask him,
how can I endure the earth?

 

And he would say,
in a short time you will be here again.
And in the time between

 

you will forget everything:
those fields of ice will be
the meadows of Elysium.

 

 

Jorge Seferis (Grécia: 1900 – 1971)

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