terça-feira, 24 de dezembro de 2019

Victor Hugo (França: 1802 – 1885)



Amanhã, na Alvorada

Amanhã, ao branquear na alvorada a campanha
Eu partirei. Bem sei o quanto esperas por mim.
Irei pela floresta, irei pela montanha.
De ti não posso mais viver distante assim.

Irei, a vista fixada, a mente ensimesmada,
Sem nada ver em volta e sem ruído ouvir,
Desconhecido, só, curvado, mãos cruzadas,
Triste. As noites dos dias não vou distinguir.

Eu não contemplarei o ouro do sol que tomba,
Nem as velas ao longe para Harfleur rumando,
E ao chegar deporei na cruz de tua tumba
Um buquê de azevinho e urzes desabrochando.


Demain, dés l'Aube


Demain, dès l’aube, à l’heure où blanchit la campagne
Je partirais. Vois-tu, je sais que tu m’attends.
J’irais par la forêt, j’irais par la montagne.
Je ne puis demeurer loin de toi plus longtemps.

Je marcherais les yeux fixés sur mes pensées,
Sans rien voir au dehors, sans entendre aucun bruit,
Seul, inconnu, le dos courbé, les mains croisées,
Triste. Et le jour pour moi sera comme la nuit.

Je ne regarderai ni l’or du soir qui tombe,
Ni les voiles au loin descendant vers Harfleur,
Et quand j’arriverais, je mettrai sur ta tombe
Un boquet de houx vert et de bruyère en fleurs.







segunda-feira, 23 de dezembro de 2019

Octavio Paz (México: 1914 – 1998)



 Um soneto e sua história curiosa, relatada pelo autor

I) Primeira versão

Crepúsculos da Cidade

(por razões que o próprio autor esclarece na segunda parte, não me preocupei com rimas e métrica na primeira versão do poema)

Flui o tempo imortal e em seu latejo
apenas vibra estéril persistência,
surda avidez de nada, indiferença,
pulso de areia, azougue sem sentido.

Feitos já tempo morto e resolvido
jazem a idade, o sonho e a inocência,
punhado de aridez na consciência,
vã cifra do homem e seu gemido.

Volvo o rosto: não sou senão a esteira
de mim mesmo, a ausência que deserto,
o eco do silêncio do meu grito.

Tudo se desmorona e se congela:
do homem só perdura seu deserto,
monumento de fel, pranto, delito.


Crepúsculos de la Ciudad

A Alí Chumacero

Fluye el tiempo inmortal y en su latido
sólo palpita estéril insistencia,
sorda avidez de nada, indiferencia,
pulso de arena, azogue sin sentido.

Hechos ya tiempo muerto y exprimido
yacen la edad, el sueño y la inocencia,
puñado de aridez en mi conciencia,
vana cifra del hombre y su gemido.

Vuelvo el rostro: no soy sino la estela
de mí mismo, la ausencia que deserto,
el eco del silencio de mi grito.

Todo se desmorona o se congela:
del hombre sólo queda su desierto,
monumento de yel, llanto, delito.


II) Relato do poeta

"Entreguei meus sonetos a Ali [Chumacero] e um ou dois meses depois os vi publicados em ‘Letras de México’. Ao lê-los descobri um erro, um só. Não destruía o verso mas modificava notavelmente seu sentido. Eu havia escrito: 'yacen la edad, el sueño y la inocencia,' e o texto impresso dizia: “yacen, la edad, el sueño y la inocencia,”. No dia seguinte vi Alí no Café Paris e lhe mostrei o corpo de delito. Não se alterou e com 'um só sorriso' me respondeu: 'É um erro afortunado. Melhora muito essa linha. Deverias estar muito contente: tens que admitir que o azar é poeta às vezes'. Tive que concordar que ele tinha razão. Mas não me decidi a aceitar aquele 'erro' e o soneto seguiu aparecendo em meus livros de acordo com a versão original, claramente inferior. Minha resistência não decorreu de um orgulho bobo, mas eu tinha 26 anos e me incomodava dizer que eram ‘já idade’ o sonho e a inocência. Ademais, o verso imediatamente anterior continha outro 'ya': 'Hechos ya tiempo muerto y exprimido'. Um dia, já faz dezesseis anos, Marco Antonio Campos me telefonou e pediu-me umas páginas em homenagem a Chumacero. Lembrei-me imediatamente do 'erro'. Não mais resisti à tentação. O que não sabia era que a emenda desse verso me levaria a desmantelar o segundo quarteto e o terceto final."

"A troca exigia a modificação do verso precedente para evitar a repetição do 'já'. Não sem muitas dúvidas e intentos inúteis, por fim escrevi os dois hendecassílabos [na métrica espanhola]: 'Resuelto al fin en fechas lo vivido / veo ya edad el sueño y la inocencia,'. Eliminei ’yacen’, não só por razões de eufonía, mas por higiene mental. A mesma razão me levou a trocar o quarto verso do mesmo quarteto, que me pareceu um tremendo pastiche de Quevedo ('vana cifra del hombre y su gemido.'). O último terceto tampouco me satisfazia inteiramente: 'Todo se desmorona o se congela: / del hombre sólo queda su desierto, / monumento de yel, llanto, delito'. O primeiro verso era inócuo; o segundo, mais próximo de Othón que de Quevedo, indiferente, ainda que um pouco patético; o terceiro, abominável: um monumento líquido, feito de substâncias como o fel e as lágrimas, coroado pelo emblema de um delito abstrato? Mudei todo o terceto. Só restou do verso final, mas como título do soneto, a palavra ‘monumento’."


III) Segunda versão, definitiva


Pequeno Monumento


Flui o tempo eterno e em sua pulsação
apenas vibra estéril insistência,
surda avidez de nada, negligência,
pulso de areia, azougue sem razão.

Fixado enfim em datas o vivido
Vejo esvaírem-se o sonho e a inocência,
punhado de aridez na consciência,
sílabas que disperso sem ruído.

Volvo o rosto: não sou senão parcela
de mim mesmo, a ausência que deserto,
o eco do silêncio de meu grito.

Olhar que quando se olha se congela,
feixe de reflexos, aspecto incerto:
ao penetrar em mim me desabito.


Pequeño Monumento


Fluye el tiempo inmortal y en su latido
sólo palpita estéril insistencia,
sorda avidez de nada, indiferencia,
pulso de arena, azogue sin sentido.

Resuelto al fin en fechas lo vivido
veo ya edad el sueño y la inocencia,
puñado de aridez en mi conciencia,
sílabas que disperso sin rüido.

Vuelvo el rostro: no soy sino la estela
de mí mismo, la ausencia que deserto,
el eco del silencio de mi grito.

Mirada que al mirarse se congela,
haz de reflejos, simulacro incierto:
al penetrar en mí me deshabito




domingo, 22 de dezembro de 2019

Katerína Gógou (Grécia: 1940 – 1993)



 Nublado

Ela se levantou e preparou um café da manhã perfeito
com movimentos matemáticos
despediu-se: Amo vocês não se atrasem
na soleira bem polida da porta.
Sacudiu o tapete lavou copos e cinzeiros
conversando consigo mesma.
Colocou a comida na panela e trocou a água dos vasos.
Sentiu-se inteligente na mercearia
alienada na loja de cosméticos
sorriu condescendente para o cabeleireiro
e comprou “A CONSCIÊNCIA DA MULHER EM UM MUNDO DE HOMENS”, edições Célula.
Estava arrumando a mesa
linda inteligente e bem-informada
quando a campainha da porta soou.
A criança dormia
e o homem apalpou-a por trás.
Ela gargalhou como viu em um comercial
e com voz sensual e áspera lhe disse: vem
Ele a fodeu e depois se secou.
A mulher levantou-se com cuidado para não despertá-lo
lavou a louça conversando consigo mesma
abriu a janela para que o cheiro saísse
Acendeu um cigarro abriu o livro e leu,
“... Somente quando as mulheres exigirem energicamente
haverá esperança de mudança”,
e logo abaixo:
SIM, MAS O QUE FIZESTE HOJE QUERIDA
O QUE FIZESTE HOJE?
Levantou-se com cautela
pegou o fio do secador
apertou-o em torno do pescoço do marido
e escreveu sob a pergunta
do movimento feminista: Enforquei um.
Então discou 197 e até que chegassem
leu o horóscopo em “MULHER”.
 

Misty


She got up and prepared breakfast perfectly
with movements of mathematical precision
greeted them: I’ll love you, so long, don’t be late
at the wisely polished doorstep.
Shook out rug washed cups and ashtrays
talking only to herself.
Put food in the saucepan and changed the water in the vase.
Felt sage at the grocery
smiled patronizingly at the hairdresser’s
felt alienated at the cosmetic warehouse
and bought “THE CONSCIENCE OF WOMAN IN A MAN’S WORLD” by Cell editions.
Was setting the table
beautiful clever and well-informed
when the doorbell rang.
The kid was asleep
and her husband touched her from the behind.
She giggle like she’d seen in an ad
and in a coarse sexual voice said to him: come
He fucked her came and dried up.
The woman rose careful not to wake him
washed the dishes talking to herself
opened the window to let the smell out
lit a cigarette opened the book and read,
“…Only when women actively demand
will there exist hope for a change”,
and a little further down:
YES BUT WHAT DID YOU DO TODAY DARLING
WHAT DID YOU DO TODAY?
She rose with caution
took the barbecue cord
tied in round her husband’s neck
and wrote under the feminist
movement’s question: I strangled one.
Then she dialed the police and until they arrived
read her horoscope in “WOMAN”.




sábado, 21 de dezembro de 2019

Eugenio Montale (Itália: 1896 – 1981)



Não nos peças a palavra que enquadre em todo lado
nossa intenção informe, e em letras de fogo
anuncie-o e lustre como um croco
perdido num empoeirado prado.

Ah o homem que se sente seguro,
dos outros e de si mesmo amigo,
e não se importa que o sol forte sua sombra
estampe sobre um desbotado muro!

Não indagues pela fórmula que possa mundos abrir-te,
mas qualquer sílaba torta e seca como um ramo.
Hoje podemos apenas dizer-te
o que não somos, o que não queremos.

(Ossos de sépia)




Non chiederci la parola che squadri da ogni lato
l’animo nostro informe, e a lettere di fuoco
lo dichiari e risplenda come un croco
perduto in mezzo a un polveroso prato.

Ah l’uomo che se ne va sicuro,
agli altri ed a se stesso amico,
e l’ombra sua non cura che la canicola
stampa sopra uno scalcinato muro!

Non domandarci la formula che mondi possa aprirti,
sì qualche storta sillaba e secca come un ramo.
Codesto solo oggi possiamo dirti,
ciò che non siamo, ciò che non vogliamo.



(Ossi di seppia)



sexta-feira, 20 de dezembro de 2019

Paul Verlaine (França: 1844 – 1896)

Luar

  

A vossa alma é escolhida paisagem

A encantar máscaras e bergamascas

Enquanto dançam e o alaúde tangem

Um tanto tristes, em vestes fantásticas.

 

Em tom menor vão todos a entoar

O amor triunfante e a vida oportuna.

Não parecem na sorte acreditar,

E o que entoam ao luar se coaduna,

 

Ao calmo luar de beleza e mágoa,

Que induz a sonhar no arvoredo as aves

E a chorar em êxtase os jatos d’água,

Os altos jatos d’água, em meio aos mármores.

 

 

Clair de Lune

 

 

Votre âme est un paysage choisi

Que vont charmant masques et bergamasques

Jouant du luth et dansant et quasi

Tristes sous leurs déguisements fantasques.

 

Tout en chantant sur le mode mineur

L'amour vainqueur et la vie opportune.

Ils n'ont pas l'air de croire à leur bonheur

Et leur chanson se mêle au clair de lune,

 

Au calme clair de lune triste et beau,

Qui fait rêver les oiseaux dans les arbres

Et sangloter d'extase les jets d'eau,

Les grands jets d'eau sveltes parmi les marbres.

 




quinta-feira, 19 de dezembro de 2019

Leopoldo Lugones (Argentina: 1874 – 1938)




A morte da lua

No parque confuso
Que as lânguidas brisas o céu perfuma,
O cipreste, como um fuso,
Desfia um novelo de bruma.
O tear da lua estende prateado seu velocino;
Abandona a enseada um lúgubre corsário,
E depois soa um sino
Pelo casario.

Sobre o horizonte malva
Da lâmina marítima argentina,
Em curva de fronte calva
A lua se inclina,
Ou dissemina um vago nácar,
Como a valva
De uma madrepérola, a flor da água do mar.

Um brilho de lúgubre frasco
Cada onda propicia.
E a noite qual enorme penhasco
Vai se sentindo imensamente solitária.

Forma o tique-taque de um relógio secundário
O tecido da vida, qual sinistro pesponto que o trespassa.
Flutua na noite de um branco mortuário
Uma benzoica insipidez de sanatório,
E todo aquele que passa
Parece uma silhueta de Purgatório.

Com emoção prosaica,
Soa ao longe, em canto de lúgubre alarde,
Uma voz de homem desgraçado, em que arde
O calor negro do rum da Jamaica.
E reina no espírito com subconsciência arcaica,
O medo do demasiadamente tarde.

Por detrás do horizonte abstrato,
Por fim a lua se afunda em lúgubre abandono,
E as trevas apalpam como o tato
de um sombrio e gelado mono.
Sobre os lunares rastros,
Ao acaso entre a eternidade e a desgraça,
Órion joga sua peça
No problemático dominó dos astros.

O frescor noturno
Triunfa de teu amoroso empenho,
E domina a tua fronte com peso taciturno
O negro cacho do sonho.
No fugaz desvario
Com que te invadem sonhadoras visões,
Vacilam as constelações;
E em teu sonho formado de aroma e estio,
Flutua um antigo fastio
de Bizâncio.

Definhando na íntima varanda,
Sem nenhuma fantasia
Contestas a minha trêmula demanda.
Com a lua em igual sincronia,
Em seu mindinho uma grande pérola se apaga;
Dissipa a brisa rubores retardados;
E o céu como uma barca que naufraga
Definitivamente vai a pique nos teus olhos.


La muerte de la luna


En el parque confuso
Que con lánguidas brisas el cielo sahúma,
El ciprés, como un huso,
Devana un ovillo de bruma.
El telar de la luna tiende en plata su urdimbre;
Abandona la rada un lúgubre corsario,
Y después suena un timbre
En el vecindario.

Sobre el horizonte malva
De una mar argentina,
En curva de frente calva
La luna se inclina,
O bien un vago nácar disemina
Como la valva
De una madreperla a flor del agua marina.

Un brillo de lóbrego frasco
Adquiere cada ola,
Y la noche cual enorme peñasco
Va quedándose inmensamente sola.

Forma el tic-tac de un reloj accesorio,
La tela de la vida, cual siniestro pespunte.
Flota en la noche de blancor mortuorio
Una benzoica insipidez de sanatorio,
Y cada transeúnte
Parece una silueta del Purgatorio.

Con emoción prosaica,
Suena lejos, en canto de lúgubre alarde,
Una voz de hombre desgraciado, en que arde
El calor negro del rom de Jamaica.
Y reina en el espíritu con subconsciencie arcaica,
El miedo de lo demasiado tarde.

Tras del horizonte abstracto,
Húndese al fin la luna con lúgubre abandono,
Y las tinieblas palpan como el tacto
De un helado y sombrío mono.
Sobre las lunares huellas,
A un azar de eternidad y desdicha,
Orión juega su ficha
En problemático dominó de estrellas.

El frescor nocturno
Triunfa de tu amoroso empeño,
Y domina tu frente con peso taciturno
El negro racimo del sueño.
En el fugaz desvarío
Con que te embargan soñadas visiones,
Vacilan las constelaciones;
Y en tu sueño formado de aroma y de estío,
Flota un antiguo cansancio
De Bizancio...

Languideciendo en la íntima baranda,
Sin ilusión alguna
Contestas a mi trémula demanda.
Al mismo tiempo que la luna,
Una gran perla se apaga en tu meñique;
Disipa la brisa retardados sonrojos;
Y el cielo como una barca que se va a pique,
Definitivamente naufraga en tus ojos.




quarta-feira, 18 de dezembro de 2019

Emily Dickinson (Estados Unidos: 1830 – 1886)


Poema J214 / F207

Provo um licor nunca fermentado –
De Canecas em Pérolas entalhadas –
Nem todos os Tonéis ao pé do Reno
Ofertam tal Bebida.

Inebriada de Ar – estou –
E de Orvalho Embriagada –
Cambaleando – por infindáveis dias de verão –
Saio de albergues de cor Azulada –

Quando os “Patrões” enxotarem a bêbeda Abelha
Dedaleira porta afora –
Quando as Borboletas – recusarem seus “tragos” –
Mais eu cairei na bebedeira.

Até que os Anjos agitem seus Chapéus nevados –
E os Santos – acorram às sacadas –
Para verem a pequena Biriteira
Ao próprio - Sol - recostada.


J214 / F207


I taste a liquor never brewed,
From tankards scooped in pearl;
Not all the vats upon the Rhine
Yield such an alcohol!

Inebriate of air am I,
And debauchee of dew,
Reeling, through endless summer days,
From inns of molten blue.

When landlords turn the drunken bee
Out of the foxglove's door,
When butterflies renounce their drams,
I shall but drink the more!

Till seraphs swing their snowy hats,
And saints to windows run,
To see the little tippler
Leaning against the sun!




terça-feira, 17 de dezembro de 2019

Eugenio Montale (Itália: 1896 – 1981)


Minstrels

                 Segundo C. Debussy*

Refrão, repercutes
entre os vidraças quentes do verão.

Acre grupo de notas sufocadas,
riso que não explode
Mas enfeita as horas ocas
e executam-nas três restos de bacanal
vestidos com retalhos de jornal,
com instrumentos nunca vistos,
similares a funis estranhos
que às vezes inflam-se para murchar depois.

Música sem ruído
que nasce das ruas
mal se eleva e de novo cai,
e colore-se de tons
ora escarlates ora azulados,
e umedece os olhos, até que o mundo
sinta-se como se cerrando os olhos
a flutuar no louro.

Escapa afunda esfuma,
depois reaparece
sufocada e distante, desvanece.
Quase não se ouve, respira-se.

Queimas
tu também entre as placas do verão,
Coração que se perde! E sem cautela
ensaias em tua flauta ignotas notas.


Minstrels

Da C. Debussy

Ritornello, rimbalzi
tra le ventrate d’afa dell’estate.

Acre groppo di note soffocate,
riso che no esplode
ma trapunge le ore vuote
e lo suonano tre avanzi di baccanale
vestiti di ritagli di giornali,
con instrumenti mal veduti,
simili a strani imbuti
che si gonfiano a volte e poi s’affaosciano.

Musica senza rumore
che nasce dalle strade,
s’innalza a stento e ricade,
e si colora di tinte
ora scarlatte ora biade,
e inumidisce glio occhi, cosi che il mondo
si vede come socchiudendo gli occi
nuotar nel biondo

Scatta ripiomba sfuma,
poi riappare
suffocata e lontana: si consuma.
Non s’ode quase, si respira.

Bruci
tu pure tra le lastre dell’estate,
cuore che ti smarrisci! Ed ora incauto
provi le ignote note sul tuo flauto.




(*) Minstrels é o décimo segundo prelúdio dos vinte e quatro compostos por Claude Debussy para piano.



segunda-feira, 16 de dezembro de 2019

Jacques Prévert (França: 1900 – 1977)




Bárbara

Lembra-te Bárbara
Chovia sobre Brest sem cessar naquele dia
E tu caminhavas sorridente
Radiante embelezada encharcada sob a chuva
Lembra-te Bárbara
Chovia sobre Brest sem cessar
E cruzei contigo na rua de Siam
Tu sorrias, e eu, eu também sorria
Lembra-te Bárbara
Tu a quem não conheço
Tu que a mim não conheces
Lembra-te, lembra-te mesmo assim daquele dia
Não te esqueças
Um homem sob um pórtico se abrigava
E gritou teu nome
Bárbara
E correste até ele sob a chuva
Encharcada linda radiante
e em seus braços te lançaste
Lembra-te disso, Bárbara.
E não te ofendas se te trato por ‘tu’
Eu digo ‘tu’ a todos os que amo
Ainda que só por uma vez os tenha visto
Digo ‘tu’ a todos os que se amam
Ainda que não os conheça
Lembra-te Bárbara, não te esqueças
Aquela chuva boa e feliz
Sobre teu rosto alegre
Sobre esta cidade feliz
Aquela chuva sobre o mar, sobre o arsenal
Sobre o barco de Ouessant
Oh, Bárbara, que estupidez a guerra
No que te transformaste agora
Sob esta chuva de ferro fogo aço sangue
E aquele que te cingiu entre os braços amorosamente
Estará morto perdido ou ainda vivo
Oh Bárbara
Chovia sobre Brest sem cessar
Como antes chovia
Mas nada é mais igual e tudo está deteriorado
É uma chuva de luto terrível e desolador
Nem mesmo é tempestade de ferro aço sangue
Muito simplesmente nuvens
Que se esfalfam como os cães
Cães que desaparecem
Levados pelo fio d'água sobre Brest
Indo apodrecer ao longe
Ao longe bem longe de Brest
Da qual não resta nada

Barbara

Rappelle-toi Barbara
Il pleuvait sans cesse sur Brest ce jour-là
Et tu marchais souriante
Épanouie ravie ruisselante sous la pluie
Rappelle-toi Barbara
Il pleuvait sans cesse sur Brest
Et je t'ai croisée rue de Siam
Tu souriais et moi je souriais de même
Rappelle-toi Barbara
Toi que je ne connaissais pas
Toi qui ne me connaissais pas
Rappelle-toi, rappelle-toi quand même ce jour-là
n'oublie pas
Un homme sous un porche s'abritait
Et il a crié ton nom Barbara
Et tu as couru vers lui sous la pluie
Ruisselante ravie épanouie
Et tu t'es jetée dans ses bras
Rappelle-toi cela Barbara
Et ne m'en veux pas si je te tutoie
Je dis tu à tous ceux que j'aime
Même si je ne les ai vus qu'une seule fois
Je dis tu à tous ceux qui s'aiment
Même si je ne les connais pas
Rappelle-toi Barbara
N'oublie pas cette pluie sur la mer
Sur ton visage heureux sur cette ville heureuse
Cette pluie sur la mer
Sur l'arsenal
Sur le bateau d'Ouessant
Oh Barbara
Quelle connerie la guerre
Qu'es-tu devenue maintenant
Sous cette pluie de fer de feu d'acier de sang
Et celui qui te serrait dans ses bras amoureusement
Est-il mort disparu ou bien encore vivant
Oh Barbara
Il pleut sans cesse sur Brest
Mais ce n'est plus pareil et tout est abîmé
C'est une pluie de deuil terrible et désolée
Ce n'est même plus l'orage de fer d'acier de sang
Tout simplement des nuages
Qui crèvent comme des chiens
Des chiens qui disparaissent
Au fil de l'eau sur Brest
Et vont pourrir au loin
Au loin très loin de Brest
Dont il ne reste rien




domingo, 15 de dezembro de 2019

Jorge Luis Borges (Argentina: 1899 – 1986)



Xadrez I

Em seu solene canto, os jogadores
Movem lentas peças. O tabuleiro
Apresa-os até a aurora em seu severo
Espaço, onde odeiam-se duas cores.

Dentro irradiam mágicos rigores
As formas: torre homérica, ligeiro
Cavalo, hostil rainha, rei postreiro,
Oblíquo bispo e peões agressores.

Quando os jogadores tiverem ido
Quando o tempo já os tiver consumido
Por certo não terá cessado o rito.

No oriente incendiou-se esta guerra
Cujo anfiteatro é hoje toda a terra,
Assim como o outro, este jogo é infinito.


Ajedrez I


En su grave rincón, los jugadores
Rigen las lentas piezas. El tablero
Los demora hasta el alba en su severo
Ámbito en que se odian dos colores.

Adentro irradian mágicos rigores
Las formas: torre homérica, ligero
Caballo, armada reina, rey postrero,
Oblicuo alfil y peones agresores.

Cuando los jugadores se hayan ido
Cuando el tiempo los haya consumido,
Ciertamente no habrá cesado el rito.

En el oriente se encendió esta guerra
Cuyo anfiteatro es hoy toda la tierra,
Como el otro, este juego es infinito.




Jorge Seferis (Grécia: 1900 – 1971)

  Argonautas   E se a alma deve conhecer-se a si mesma ela deve voltar os olhos para outra alma: * o estrangeiro e inimigo, vim...