quarta-feira, 29 de setembro de 2021

Jorge Luis Borges (Argentina: 1899 – 1986)

Do livro Elogio da sombra – 24 / 31

  

Duas versões de “Ritter, Tod und Teufel”

 

I

Sob o quimérico elmo seu severo

Perfil é tão cruel como a cruel espada

Que aguarda. Pela selva despojada

Impassível cavalga o cavaleiro.

Torpe e dissimulada, a corja obscena

encurralou-o: o Demônio de servís

olhos, os labirínticos répteis

E o branco ancião do relógio de areia.

Cavaleiro de ferro, quem te mira

sabe que em ti não mora a falsidade

ou o pálido temor. Tua má sorte

É mandar e ultrajar. Tu és valente

E não serás indigno certamente,

Alemão, do Demônio e da Morte.

 

II

Os caminhos são dois. O daquele homem

De ferro e de soberba, e que cavalga,

Firme na fé, pela suspeita selva

Do mundo, entre as zombarias e a dança

estática do Demônio e da Morte,

E o outro, o breve, o meu. Em que desvanecida

Noite ou manhã antiga descobriram

Meus olhos a fantástica epopeia,

O duradouro sonho de Düher,

O herói e a caterva de suas sombras

Que me buscam, me espreitam e me encontram?

A mim, não ao paladino, exorta o branco

Ancião coroado de sinuosas

Serpentes. A clepsidra sucessiva.

Mede meu tempo, não seu eterno agora.
Eu terei me tornado em cinza e treva;

Eu, que parti depois, terei alcançado

Meu término mortal; tu, que não és,

 

Dos Versiones De "Ritter, Tod Und Teufel


I
Bajo el yelmo quimérico el severo
Perfil es cruel como la cruel espada
Que aguarda. Por la selva despojada
Cabalga imperturbable el caballero.
Torpe y furtiva, la caterva obscena
Lo ha cercado: el Demonio de serviles
Ojos, los laberínticos reptiles
Y el blanco anciano del reloj de arena.

Caballero de hierro, quien te mira
Sabe que en ti no mora la mentira
Ni el pálido temor. Tu dura suerte
Es mandar y ultrajar. Eres valiente
Y no serás indigno ciertamente,
Alemán, del Demonio y de la Muerte.

 

II
Los caminos son dos. El de aquel hombre
De hierro y de soberbia, y que cabalga,
Firme en su fe, por la dudosa selva
Del mundo, entre las befas y la danza
Inmóvil del Demonio y de la Muerte,
Y el otro, el breve, el mío. ¿En qué borrada
Noche o mañana antigua descubrieron
Mis ojos la fantástica epopeya,
El perdurable sueño de Durero,
El héroe y la caterva de sus sombras
Que me buscan, me acechan y me encuentran?
A mí, no al paladín, exhorta el blanco
Anciano coronado de sinuosas
Serpientes. La clepsidra sucesiva
Mide mi tiempo, no su eterno ahora.

Yo seré la ceniza y la tiniebla;
Yo, que partí después, habré alcanzado
Mi término mortal; tú, que no eres,
Tú, caballero de la recta espada
Y de la selva rígida, tu paso
Proseguirás mientras los hombres duren.
Imperturbable, imaginario, eterno.

 

(*) Cavaleiro, Morte e Diabo

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Jorge Seferis (Grécia: 1900 – 1971)

  Argonautas   E se a alma deve conhecer-se a si mesma ela deve voltar os olhos para outra alma: * o estrangeiro e inimigo, vim...