sábado, 1 de fevereiro de 2020

Ester de Izaguirre (Paraguai: 1923 – 2016)




Porto


As luzes dos navios ancorados na enseada
trituram minha sombra sobre a pedra impávida;
O Cruzeiro do Sul, inútil, solitário, sinaliza
um flanco dolorido e uma rota quebrada.

Aderem-se meus desejos aos barcos que se vão
e dividida inteira me vejo desde longe:
vislumbro minha silhueta que não agita lenços
nem libera os beijos que morrem em suas mãos.

E persisto cravada como a cruz deicida,
cunhada em meus braços a dupla desventura
de brindar com os outros meu adeus de despedida,

quando minha nave à sorte pensava lançar
ainda que em sombrias praias naufrague, jungida,
e o vento seus audazes mastros venha a quebrar.


Puerto


Las luces de los buques anclados en la rada
desmenuzan mi sombra sobre la piedra impávida;
la Cruz del Sur, inútil, señala solitaria
un flanco dolorido y una ruta quebrada.

Se adhieren mis deseos a los barcos lejanos
y dividida entera me veo desde lejos:
vislumbro a mi silueta que no agita pañuelos
ni libera a los besos que mueren en sus manos.

Y persisto clavada como a la cruz deicida,
acuñando en mis brazos la doble desventura
de brindar a los otros mi adiós de despedida,

cuando quisiera hacerse mi nave a la ventura
aunque en umbrosas playas naufrague, sometida,
y el viento despedace su audaz arboladura.




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