Rei
Ricardo II – Solilóquio do Ato 3, Cena 2
Não
importa onde; de consolo ninguém fale;
Falemos
de epitáfios, vermes e tumbas;
Fazer
do pó papel e com olhos rasos
Inscrever
nossa dor no seio da terra,
Falemos
de cartórios e testamentos:
Se
assim não for, o que podemos legar
Salvo
nossos depostos corpos ao solo?
Nossas
terras, vidas, são de Bolingbroke, [1]
E nada
temos de nosso exceto a morte
E esta
pequena porção de terra estéril
Que
serve de abrigo e cobre nossos ossos.
Por
Deus, sentemo-nos todos nesse chão
E
contemos casos tristes de reis mortos;
Alguns
depostos; alguns mortos em guerras;
Assombrados
por fantasmas destronados;
Mortos
ou envenenados por suas esposas;
Assassinados:
por dentro da coroa
Que
circunda as têmporas mortais de um rei
Domina
a Morte a corte e o bufão idiota,
Rindo-se
de seu estado e de sua pompa,
Cedendo-lhe
um suspiro, miúda cena,
Para
ser temido, reinar e matar,
Insuflando
sua própria e vã presunção,
Como se
a carne que cerca nossa vida
Fosse
bronze invencível, e assim blindada
Por fim
chega e com um pequeno alfinete
Fura os
muros do castelo, e adeus meu rei!
Cobri-vos
e não zombai da carne e o sangue
Com
solene vênia: ignorai o respeito,
A
tradição, a etiqueta e formais deveres,
Pois
vós julgastes-me mal por muito tempo:
Vivo de
pão como vós, sinto desejos,
Sinto
pesar, falta de amigos: assim
Como
podeis dizer a mim que sou um rei?
KING
RICHARD II – Act 3, Scene 2
No
matter where; of comfort no man speak:
Let’s
talk of graves, of worms, and epitaphs;
Make
dust our paper and with rainy eyes
Write
sorrow on the bosom of the earth,
Let’s
choose executors and talk of wills:
And yet
not so, for what can we bequeath
Save
our deposed bodies to the ground?
Our
lands, our lives and all are Bolingbroke’s,
And
nothing can we call our own but death
And
that small model of the barren earth
Which
serves as paste and cover to our bones.
For
God’s sake, let us sit upon the ground
And
tell sad stories of the death of kings;
How
some have been deposed; some slain in war,
Some
haunted by the ghosts they have deposed;
Some poison’d
by their wives: some sleeping kill’d;
All
murder’d: for within the hollow crown
That
rounds the mortal temples of a king
Keeps
Death his court and there the antic sits,
Scoffing
his state and grinning at his pomp,
Allowing
him a breath, a little scene,
To
monarchize, be fear’d and kill with looks,
Infusing
him with self and vain conceit,
As if
this flesh which walls about our life,
Were
brass impregnable, and humour’d thus
Comes
at the last and with a little pin
Bores
through his castle wall, and farewell king!
Cover
your heads and mock not flesh and blood
With
solemn reverence: throw away respect,
Tradition,
form and ceremonious duty,
For you
have but mistook me all this while:
I live
with bread like you, feel want,
Taste
grief, need friends: subjected thus,
How can
you say to me, I am a king?
Henry
Bolingbroke: personagem fictício que, na peça, depõe Ricardo II e torna-se rei,
com o nome de Henry IV.
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