sábado, 14 de dezembro de 2019

George Seferis (Grécia: 1900 – 1971)



Sobre um Verso Estrangeiro

 

(Les Regrets, de Joachim Du Bellay)

 

Para Elli, Natal, 1931

 

(Da tradução do grego para o inglês de Edmund Keeley e Philip Sherrard)

 

Afortunado aquele que fez a viagem de Odisseu.

Afortunado se ao partir ele sentiu o cordame de um amor forte em seu corpo, espalhando-se como veias pelas quais o sangue pulsa.

 

Um amor de indissolúvel ritmo, inconquistável como a música e interminável porque ele nasceu quando nascemos e quando morre, se é que morre, nem nós sabemos nem tampouco outrem.

 

Peço a Deus que me ajude a dizer, nalgum momento de alegria plena, o que é esse amor:

por vezes quando me acomodo envolvido pela solidão do exílio eu ouço o seu distante murmúrio como o som do mar que se encontrou com uma inexplicável tempestade repentina.

 

E de novo e de novo a sombra de Odisseu surge à minha frente, seu olho avermelhado pelo sal das águas,

pelo anseio amadurecido de ver por outra vez a fumaça se evolando de sua aconchegante lareira e o envelhecido cão a esperá-lo à porta.

 

Um homem avantajado, sussurrando por entre a barba embranquecida palavras em nossa língua, como falada há três mil anos.

Ele estende a palma calejada pelas cordas e pelo timão, sua pele envelhecida pelo vento seco do norte, pelo calor e pela neve.

 

É como se ele quisesse expulsar de nosso meio o sobre-humano Ciclope de um só olho, as Sereias que nos fazem esquecer com seu canto, Cila e Caríbdis:

tantos monstros complexos que nos impedem de lembrar que ele também foi um homem lutando pelo mundo com corpo e alma.

 

Ele é o poderoso Odisseu: aquele que ideou o cavalo de madeira com que os aqueus conquistaram Tróia.

Imagino-o vindo para dizer-me como também posso construir um cavalo de madeira para conquistar a minha própria Tróia.

 

 

Porque ele fala com humildade e calma, sem esforço, como se fosse meu pai

ou certos velhos marinheiros da minha infância que, aprendendo em suas redes com o inverno que chegava e o vento que se encolerizava,

 

costumavam declamar, com lágrimas nos olhos, a canção de Erotócrito**; era então que eu estremeceria em meu sono diante do injusto destino de Aretusa descendo pelos degraus de mármore.

 

Ele fala-me da áspera dor que se sente quando o navio singra com suas velas enfunadas pelas lembranças e sua alma que se transmuta em leme;

do estar-se só, na escuridão da noite, e desamparado como a palha no chão da debulha;

 

da amargura de ver seus companheiros tragados um a um pela fúria dos elementos e dispersados;

e do como revigorar-se de modo estranho ao conversar com os mortos quando os vivos que sobram já não são bastantes;

 

Ele fala... Ainda vejo suas mãos que souberam como avaliar o cinzelamento da sereia na proa

apresentando-me o mar azul sem ondas no coração do inverno.

 

 

Upon a Foreign Verse

 

(Les Regrets by Joachim Du Bellay)

 

For Elli, Christmas 1931

 

Fortunate he who's made the voyage of Odysseus.

Fortunate if on setting out he's felt the rigging of a love strong in his body, spreading there like veins where the blood throbs.

 

A love of indissoluble rhythm, unconquerable like music and endless

because it was born when we were born and when it dies, if it does die, neither we know and nor does anyone else.

 

I ask God to help me say, at some moment of great happiness, what that love is:

sometimes when I sit surrounded by exile I hear its distant murmur like the sound of sea that has met with an inexplicable squall.

 

And again and again the shade of Odysseus appears before me, his eye red from the waves' salt,

from his ripe longing to see once more the smoke ascending from his warm hearth and the dog grown old waiting by the door.

 

A large man, whispering through his whitened beard words in our language spoken as it was three thousand years ago.

He extends a palm calloused by the ropes and the tiller, his skin weathered by the dry north wind, by heat and snow.

 

It's as if he wants to expel from among us the superhuman one-eyed Cyclops, the Sirens who make you forget with their song, Scylla and Charybdis:

so many complex monsters that prevent us from remembering that he too was a man struggling in the world with soul and body.

 

He is the mighty Odysseus: he who proposed the wooden horse with which the Achaeans captured Troy.

I imagine he comes to tell me how I too may build a wooden horse to capture my own Troy.

 

Because he speaks humbly and calmly, without effort, as though he were my father

or certain old sailors of my childhood who, leaning on their nets with winter coming on and the wind angering,

 

used to recite, with tears in their eyes, the song of Erotokritos;

it was then I would shudder in my sleep at the unjust fate of Aretousa descending the marble steps.

 

He tells me of the harsh pain you feel when the ship's sails swell with memory and your soul becomes a rudder;

of being alone, dark in the night, and helpless as chaff on the threshing floor;

 

of bitterness of seeing your companions one by one pulled down into the elements and scattered;

and of how strangely you gain strength conversing with the dead when the living who remain are no longer enough.

 

He speaks ... I still see his hands that knew how to judge the carving of the mermaid at the prow

presenting me the waveless blue sea in the heart of winter.

 

 

(*)  Erotókritos (do grego moderno, Ερωτόκριτος): Epopéia romântica, composta pelo poeta cretense Vitsentzos Kornaros no início do século XVII. Narra os amores de dois jovens: Erotócrito (que aparece como Rotokritos ou Rokritos) e Aretoussa ou Aretusa (do grego Αρετούσα). Os temas tratados são a honra, a amizade, a posição social e a coragem. 




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